Saúde

Sintomas, prevenção e tratamento de doenças

Por que é comum trocar de médico o tempo todo?

Craig Frazier/The New York Times
Imagem: Craig Frazier/The New York Times

Bod Brody

Do New York Times

20/10/2017 10h27

Bob Brody, ex-jornalista especializado em saúde em Nova York, é autor do livro "Playing Catch With Strangers: A Family Guy (Reluctantly) Comes Of Age".

Pessoalmente, sempre gostei do meu clínico geral. Ele sempre me recebia em seu consultório com um olá amistoso e um sorriso. Um perguntava sobre os filhos do outro. Costumávamos discutir nossos programas de exercícios, corrida no caso dele, basquete, no meu. Durante mais de 20 anos, chegamos a confidenciar nossas ambições enquanto escritores.

Porém, eu vivia questionando suas opiniões relacionadas à medicina.

Por exemplo, quando meu pescoço me incomodava. Eu reclamava com ele sobre dor e rigidez frequentes --provavelmente por ficar horas plantado diante de um computador. Ele sugeriu usar um colar cervical durante o trabalho. "Isso é necessário?", eu questionei. Não, ele respondeu.

Nunca me perguntou onde o pescoço doía, quanto e com que frequência. Nunca examinou fisicamente meu pescoço, nem pediu para girar a cabeça e observar a amplitude do movimento. Ele não me orientou a fazer exercícios específicos, arrumar uma cadeira nova ou fazer intervalos frequentes do teclado.

Em vez disso, me aconselhou a procurar um ortopedista ou fisiatra. Além disso, imprimiu artigos de publicações médicas sobre problemas no pescoço para que eu lesse, tudo complicado demais para mim.

Algum tempo depois, meu check-up anual revelou que meu colesterol total estava no limite máximo. "É melhor eu receitar estatina. Posso indicar o Lipitor", disse meu médico. Perguntei se aquilo seria necessário. Ele respondeu que não.

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Medo de errar faz com que profissionais encaminhem pacientes para especialistas Imagem: iStock

Médicos cautelosos e pacientes insatisfeitos

"É uma tendência que reflete o estado da medicina hoje em dia", afirma a dra. Danielle Ofri, professora ajunta de Medicina do Centro Médico Langone, da Universidade de Nova York e autora de "What Patients Say, What Doctors Hear". "Os médicos são tão avessos a riscos que receitam remédios como padrão e, automaticamente, encaminham pacientes a especialistas. É sistêmico."

O que fazer? Afinal, tratava-se da minha saúde. Como atleta amador veterano e fã de exercícios, entrei saudável na minha sexta década, mas por fim –inevitavelmente-- minha idade terminaria acertando as contas comigo. Será que eu deveria arriscar minha longevidade para evitar magoar os sentimentos do meu médico? Eu precisava de alguém que respeitasse e em quem confiasse. Será que deveria deixar tudo como estava ou cair fora?

"Isso é algo mais comum hoje do que há 20 anos", declara o dr. Michael Fleming, ex-presidente da Academia Americana de Médicos da Família. "Pode ser muito frustrante para o paciente. É por isso que, mais do que nunca, estão inclinados a trocar de médico."

Um estudo publicado em 2001 no peródico "Journal of Family Practice" mostrava que 20 por cento dos pacientes trocavam voluntariamente de clínico geral ao longo de três anos. De acordo com a pesquisa, a satisfação do paciente com o relacionamento muitas vezes previa lealdade. Na verdade, os pacientes com a pior relação com o médico apresentavam o triplo de probabilidade de deixá-los do que aqueles com ótimo relacionamento.

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Ficha eletrônica também é responsável pela relação ruim com o paciente Imagem: iStock

Ficha médica eletrônica piorou a relação com os pacientes

Minha mais recente consulta com meu médico tornou a tomada de decisão muito fácil. Durante anos, ele discutiu minha saúde comigo em seu consultório enquanto digitava as observações em uma ficha médica eletrônica no computador. Depois, ele se virava de lado para conversar comigo, e aí voltava a olhar para a tela. Geralmente, o médico olhava mais para o computador do que para mim, mas pelo menos eu conseguia ver seu rosto.

Na minha última consulta, não foi mais assim. Pelo contrário, ele se sentou ao computador em seu consultório de costas para mim. Sim, ele literalmente me deu as costas. Ainda ouvia sua voz, mas sem ver seu rosto.

"A ficha médica eletrônica transformou os médicos em técnicos de digitação de dados. Ela cria uma interferência entre médico e paciente", afirma o dr. Russell Phillips, diretor do Centro de Clínica Geral da Faculdade de Medicina Harvard. Um estudo publicado ano passado em "Annals of Internal Medicine" descrevia essa situação complicada. Enquanto os médicos estão com os pacientes no consultório, gastam somente 53 por cento do tempo em contato cara a cara e 37 por cento do tempo cuidando da ficha médica e de outras funções administrativas.

Claramente, eu agora tinha, também, de dar as costas para meu médico. A grande questão era como. Como se demite seu antigo médico? Você simplesmente diz que seus serviços não são mais necessários ou, "sinto muito, mas decidi levar minha saúde em outra direção"? Ou, "desculpe, mas preciso começar a me consultar com outra pessoa"?

"Muitos pacientes nem imaginam como abordar essa luta, e se sentem mal com a ideia", conta George Blackall, professor adjunto da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual da Pensilvânia e um dos autores de "Breaking the Cycle: How to Turn Conflict Into Collaboration When You and Your Patients Disagree" (em português, Rompendo o ciclo: como transformar conflito em colaboração quando você e seu paciente discordam). "Você deveria conversar com seu médico. Esse é o segredo. Deixe claro como se sente. Diga o que precisa."

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Segundo estudo, humor do médico também afeta o paciente Imagem: iStock

Profissionais cansados também são causa

Como os médicos se sentem em relação a si mesmos pode se traduzir em como os pacientes se sentem sobre eles. Quanto mais um profissional se sente satisfeito em praticar a medicina, mais satisfeitos os pacientes tendem a ser, concluiu um estudo publicado em "Journal of General Internal Medicine". E o contrário também parece ser verdade. "O esgotamento e a fadiga de cuidador entre os médicos é um problema real e crescente que afeta o paciente", declara o porta-voz da Associação Médica Americana.

No ano passado, na publicação "Mayo Clinic Proceedings", o dr. Tait Shanafelt, então diretor do programa do bem-estar do médico na Clínica Mayo, afirmou que "pesquisas mostraram que mais da metade desses profissionais nos Estados Unidos está enfrentando sintomas de esgotamento, e o índice está crescendo".

Enquanto eu sofria para tomar minha decisão, uma amiga do Facebook, que também se consulta com meu médico, veio com uma surpresa. Ela publicou uma mensagem dizendo que ele iria se aposentar em breve. Assim, liguei para seu consultório para verificar. Sim, disse a recepcionista, ele se aposentaria no mês seguinte.

Assim, fui poupado de ter de lhe dizer que iria abandoná-lo e logo me consultarei com outro profissional mesmo. O meu largou o serviço antes que minha saúde fizesse o mesmo comigo (e possivelmente antes que a sua também fizesse o mesmo). No fim das contas, ele me fez um grande favor. Encerrar a carreira pode ter salvado a minha vida.

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