Saúde

Sintomas, prevenção e tratamento de doenças

"Nova bariátrica" não é cirurgia e ainda divide especialistas

Arte/UOL
Técnica apelidada de "nova bariátrica" dispensa cirurgia e é feita como uma endoscopia Imagem: Arte/UOL

Chloé Pinheiro

Colaboração para o UOL

19/10/2017 04h15Atualizada em 19/10/2017 18h40

Desde que começou a ser testada no Brasil, em novembro do ano passado, a gastroplastia endoscópica ganhou fama instantânea de “nova bariátrica”. Só que a técnica, que costura o estômago sem cortes para reduzir seu tamanho, ainda não foi reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) como tratamento contra a obesidade.

“O procedimento acabou sendo divulgado erroneamente como uma nova bariátrica, mas não é uma cirurgia e não substitui as técnicas convencionais de redução de estômago”, diz Eduardo Grecco, gastrocirurgião que coordena o primeiro grupo no país autorizado pelo Ministério da Saúde a testar o método no combate à doença, na Faculdade de Medicina do ABC, na Grande São Paulo.

Além de Grecco, a Universidade de São Paulo testa o método, dessa vez em pessoas que já fizeram o bypass gástrico, uma das modalidades da cirurgia tradicional, e ganharam peso de novo. “É provável que o procedimento tenha seu lugar no tratamento da obesidade de grau 1 ou de indivíduos com sobrepeso, mas ainda faltam estudos com acompanhamento a longo prazo”, comenta Eduardo Moura, cirurgião diretor do Serviço de Endoscopia Gastrointestinal do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.

 

Arte/UOL
Bariátrica convencional Imagem: Arte/UOL
O grupo de Grecco já costurou o estômago de 22 dos 30 voluntários que participam da fase experimental do tratamento, todos com índice de massa corpórea (IMC) entre 30 e 40. Até agora, quase um ano depois do início dos testes, eles perderam cerca de 20% do peso cada um. Na cirurgia de redução de estômago, a perda chega a 40%, e ela é indicada para quem tem IMC maior que 40 ou 35, desde que com doenças associadas.

O IMC, cálculo que leva em conta peso e altura, é o principal indicador da obesidade. Resultados acima de 30 significam que a doença já se instalou e, a partir daí, ela é dividida de acordo com a intensidade. A forma mais leve, o grau 1, vai até o 35. Entre o 35 e 40, estão os obesos moderados, ou grau 2. A versão mais grave, a obesidade mórbida, atinge quem tem IMC de 40 para cima.

É, provavelmente, para esse outro público, de graus 1 e 2, que o método será indicado, mas a confusão fez muita gente achar que uma nova solução instantânea para emagrecer chegou ao mercado. “Ela pode ser uma ferramenta para quem precisa perder peso e ainda não está indicado para a bariátrica, mas tudo depende do controle que será feito depois e as chances de engordar novamente em dois anos são maiores do que na cirurgia”, comenta Caetano Machesini, cirurgião presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica.

“Me preocupa porque o obeso muitas vezes está desesperado por uma novidade que solucione seu problema e ainda não conhecemos totalmente a eficiência da técnica a longo prazo e seus riscos”, opina Cid Pitombo, cirurgião bariátrico e coordenador do Programa de Cirurgia Bariátrica do Rio de Janeiro.

O método foi desenvolvido há sete anos, mas já foram realizados mais de 6.000 procedimentos do tipo no mundo, com resultados animadores. “Os estudos nos outros países mostram que a perda média de 20 a 25% do peso total permanece por até dois anos depois em 83% dos pacientes”, conta Grecco.

Arte/UOL
Antes e depois da gastroplastia endoscópica, a "nova bariátrica" Imagem: Arte/UOL

Como é feita a “nova bariátrica”?

Um pequeno tubo é inserido na boca do paciente que, anestesiado, não sente enquanto uma espécie de máquina de costura une dois pontos da parede de seu estômago. Assim, o aparelho cria uma dobra, como a do ajuste de uma calça que ficou grande demais. Tudo leva cerca de 50 minutos e o indivíduo vai para casa no mesmo dia. Depois, a recuperação é a mesma das cirurgias bariátricas, semanas de dieta líquida, depois cremosa, pastosa para, enfim, voltar aos sólidos. A dobra não é reversível, o tecido cicatriza dessa maneira, mas pode “afrouxar” se a dieta não mudar.

“Todo método que é apenas restritivo tende a falhar porque a fisiologia segue a mesma, não há as alterações hormonais promovidas quando parte do estômago é retirado ou seu trânsito alterado”, comenta Ricardo Cohen, cirurgião coordenador do Centro de Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo. É que as operações convencionais mudam o perfil dos hormônios secretados pelo estômago, como a grelina e a leptina, ligados à saciedade.

Para quem ela serve?

“Ela deve ser encarada como uma prevenção da obesidade mórbida, e não combate”, orienta Machesini. Mas como hoje as regras para redução do estômago exigem um IMC mínimo de 35, seria preciso também rever esse critério para que o método seja de fato indicado para pessoas com IMC a partir de 30.

A justificativa para operar pessoas fora da faixa indicada para as bariátricas é impedir que elas cheguem ao quadro mórbido, que traz riscos sérios à saúde, mas ainda não há consenso sobre isso. O grupo de Grecco, aliás, observou que em 60 dias os voluntários já apresentavam melhoras na pressão arterial e no nível de glicose no sangue, sem efeitos colaterais como a deficiência na absorção de nutrientes associada às bariátricas. Um sinal de que a gastroplastia endoscópica poderia diminuir o risco de diabetes e hipertensão, dois dos problemas mais perigosos associados ao excesso de peso.

Mas tudo depende ainda da comprovação da técnica, que por enquanto é vista como experimental, como tratamento para a obesidade leve e moderada. É a regulamentação do CFM que determinará onde se enquadra o novo tratamento. Enquanto isso, ele ainda não entra no rol de procedimentos do Sistema Único de Saúde e nem dos convênios. Por isso, apesar do equipamento já ser liberado para comercialização pela Anvisa desde novembro, os médicos que realizarem o procedimento correm risco de sofrerem punições do CFM.

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