Comportamento

Homossexualidade não é transtorno desde 1973; tratamento causa sofrimento

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Liminar que permite "tratamentos de reversão" foi criticada pelo Conselho Federal de Psicologia Imagem: iStock

Thamires Andrade

Do UOL

21/09/2017 04h10

A liminar concedida pelo juiz Waldemar Cláudio de Carvalho, da 14ª Vara do Distrito Federal, causou polêmica ao permitir que psicólogos ofereçam terapias de "reversão sexual" para pacientes gays, sem qualquer censura ou autorização do CFP (Conselho Federal de Psicologia).

Considerada um "retrocesso" por membros do Conselho Nacional de Combate à Discriminação de LGBT (CNCD/LGBT), a liminar também será combatida pelo CFP, que desde 1999 proíbe esses "tratamentos". Foi-se o tempo que a opção sexual era considerada uma doença que poderia ser tratada.

Em 1973, a homossexualidade, que, na ocasião era chamada de homossexualismo (o sufixo -ismo é muito usado para denominar doenças) deixou de ser considerada uma doença pela Associação Americana de Psiquiatria e foi excluída do DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais). A OMS (Organização Mundial da Saúde) demorou, mas seguiu pelo mesmo caminho em 1990.

De acordo com Christian Dunker, psicanalista e professor titular do Instituto de Psicologia da USP, essa despatologização da homossexualidade só aconteceu graças a dois processos: a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos na década de 60/70 e aos estudos científicos. "Não existiam relatos concretos de modificação na orientação sexual, tudo parecia uma anedota e isso contribuiu para que a homossexualidade passasse a ser tratada como uma orientação", acredita Dunker.

A relevância desses artigos foi importante entre a classe médica e dos psicólogos, tanto que o CFP excluiu a prática da "cura gay", também conhecida como reversão/reconversão/reorientação, depois do estudo "Reparative Therapy of Male Homosexuality: A New Clinical Approach" (Terapia Reparativa em Homens Homossexuais, em livre tradução) de Joseph Nicolosi, psicologo clínico norte-americano.

Segundo Alexandre Saadeh, coordenador do Ambulatório de Transtorno de Identidade de Gênero e Orientação Sexual do IPq (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas), esses estudos mostraram que a homossexualidade não passava de uma variação de um comportamento comum entre os seres humanos. “Não implicava em uma diferenciação que poderia ser revertida com alguma intervenção médica. Não se corrige a orientação sexual, você é o que é e ponto”, acredita.

O que era a "cura gay"?

No passado, alguns psicoterapeutas acreditavam que era possível reverter a orientação sexual por meio de um tratamento que hoje seria semelhante a terapia cognitivo-comportamental. O foco, segundo Dunker, era na aversão que o paciente deveria sentir ao ter desejos homossexuais.

Para isso, eles apresentavam uma série de estímulos homoeróticos e, ao mesmo tempo, administravam substâncias que provocam enjoos e nojo. Eles partiam do princípio básico de que a sexualidade era uma coisa aprendida e, ao associar relacionamentos homossexuais com sentimentos aversivos, era possível “se curar” disso.

“Mas os resultados nunca foram consistentes. Os pacientes não se livravam das fantasias e dos desejos. Só se afastavam da sexualidade de modo geral, se reprimiam. E, em grande parte dos estudos, as fantasias retomavam depois de um tempo, o que causava ainda mais sofrimento”, explica Dunker.

Outras terapias, também violentas, foram relatadas no passado, como administração de hormônios e eletroconvulsoterapia (técnica que produz estímulos elétricos no cérebro), também sem qualquer resultado bem-sucedido. “Além de não trazer qualquer bem para o paciente, essa ‘tentativa de cura’ causava efeitos adversos, como a inadequação em relação a si mesmo”, fala Dunker.

“Cura gay” traz mais sofrimento para jovens e familiares

Para Edith Modesto, psicanalista e fundadora do GPH (Grupo de Pais de Homossexuais), essa "ilusão" de que é possível reverter a homossexualidade pode trazer muita frustração para os jovens, que tem a saúde mental comprometida nessa fase de descobertas por conta de bullying e rejeição na família.

Graças à representatividade de diferentes orientações sexuais na mídia, Edith nota que os familiares têm aceitado com mais facilidade a homossexualidade dos filhos. "Antes, identificávamos no grupo que o processo de aceitação dos pais demorava de dois a três anos e, hoje, a média é de dois a três meses. Isso é uma bênção. Mas me preocupo sobre como essa discussão de 'cura' pode impactar a aceitação."

Carla Zeglio, diretora e psicoterapeuta sexual do INPASEX (Instituto Paulista de Sexualidade), acredita que fazer divulgação enganosa de possíveis modificações comportamentais não é papel dos psicólogos e pode trazer malefícios para a família e a sociedade. “Nosso papel é contribuir para uma sociedade mais igualitária, acolhedora e parceira. Nós temos que ajudar o paciente a buscar qualidade de vida em todos os aspectos, inclusive o sexual. E não oferecer uma ‘cura’”, diz.

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