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Metade dos adultos com ansiedade ou depressão em SP tem dores crônicas

Estudo alerta que doenças mentais devem ser levadas em conta no sistema de saúde imagem: iStock

Da Agência Fapesp

20/07/2017 16h05

Há uma forte relação entre ansiedade ou depressão e algumas doenças físicas crônicas. É o que mostra uma pesquisa feita pelo IPq (Instituto de Psiquiatria) do Hospital das Clinicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

De acordo com o estudo, que avaliou pessoas adultas residentes na região metropolitana de São Paulo, a dor crônica foi a mais comum entre os indivíduos com transtorno de humor --como depressão e bipolaridade--, ocorrendo em 50% dos casos de transtornos de humor, seguidos por doenças respiratórias (33%), doença cardiovascular (10%), artrite (9%) e diabetes (7%).

Os distúrbios de ansiedade também são largamente associados com dor crônica (45%) e doenças respiratórias (30%), assim como com artrite e doenças cardiovasculares (11% cada).

A hipertensão foi associada a ambos os distúrbios em 23%. O resultado do estudo é que indivíduos com transtornos de humor ou de ansiedade tiveram duas vezes mais chance de apresentar doenças crônicas.

O artigo, publicado no "Journal of Affective Disorders", faz parte do São Paulo Megacity Mental Health Survey, e ao todo, foram entrevistados 5.037 moradores da Região Metropolitana de São Paulo, com 18 anos ou mais.

Estresse influencia na alta incidência de depressão e ansiedade em SP

Os dados mostram a necessidade de maior atenção ao tema. “Já era esperado que houvesse uma relação forte entre essas doenças. O problema é que a prevalência de ansiedade e depressão em São Paulo é muito alta por causa do estresse. Com esses números, precisamos atentar para a necessidade de passar a informação para o médico que está na linha de frente, no atendimento primário. É preciso reconhecer a comorbidade de ansiedade e depressão com as doenças crônicas que não se resume apenas à dor ”, disse Laura Helena Andrade, coordenadora do Núcleo de Epidemiologia Psiquiátrica do IPq e uma das autoras do estudo.

Para entender a magnitude do problema, é preciso fazer uma conta simples. Dos cerca de 11 milhões de adultos dessa região, 10%, ou 1,1 milhão de pessoas, tiveram depressão nos últimos 12 meses. Já os transtornos de ansiedade acometem mais de 2,2 milhões de paulistanos, sendo que 990 mil apresentam dor crônica também. Seguindo esse cálculo, ao todo, mais de 2 milhões de pessoas convivem com depressão ou ansiedade associadas à dor crônica em São Paulo.

Com esse cenário em vista, os pesquisadores falam sobre a necessidade clara de tornar o diagnóstico e o tratamento da saúde mental uma prioridade no sistema de saúde. Andrade alerta ainda que o esperado é que a prevalência dessas doenças aumente nos próximos anos em São Paulo.

“Ao pesquisar a questão de saúde das cidades, é possível notar um aumento das prevalências de depressão e ansiedade, muito provavelmente ligado à alteração de estilo de vida na metrópole. Então, esperamos que haja um aumento também em todo o pacote, não só de depressão e ansiedade, mas também de outras doenças como infarto, acidente vascular cerebral, diabetes, hipertensão e dor”, disse.

Relação antiga

Estudos anteriores já haviam mostrado de forma consistente a associação entre doenças crônicas e transtornos de humor e ansiedade. Mas ainda não se sabe por que a relação entre dor crônica e ansiedade ou depressão é tão intensa, pois os mecanismos fisiopatológicos da dor crônica são pouco conhecidos.

A comorbidade pode ser explicada a partir das limitações comportamentais devido a doenças físicas, que restringem o indivíduo a exercer atividades gratificantes.

Andrade explica que, assim como as células do sistema de defesa são ativadas quando há uma invasão por um agente patógeno, o estresse psicológico em uma situação ambiental --como, por exemplo, viver em uma cidade como São Paulo-- acaba ativando o sistema inflamatório.

“Aumento da inflamação, lesões do endotélio --camada de célula presente em todos os vasos sanguíneos-- e danos oxidativos são algumas vias que podem estar relacionadas à ocorrência da comorbidade. Por isso, precisamos tratar os sintomas depressivo-ansiosos agressivamente em pacientes com condições médicas crônicas, pois sua resolução pode provocar uma melhora geral sintomática e diminuição no risco de mortalidade e complicações”, disse Laura.

No entanto, de acordo com a pesquisadora, ainda serão necessárias mais pesquisas com esse enfoque para entender a interação entre depressão, ansiedade e doenças físicas crônicas.

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