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Cidade de Deus: interação entre idosos e crianças evita solidão e violência

Ana Terra Athayde

Do Rio de Janeiro para a BBC News Brasil

2019-03-25T12:54:59

25/03/2019 12h54

Cedo pela manhã, Maria Alzira da Silva costuma pegar sua bengala e subir em um ônibus em direção à Casa Emilien Lacay - exceto quando tiroteios a impedem de transitar pela Cidade de Deus, na Zona Oeste do Rio.

Aos 87 anos, ela é uma das atendidas pelo centro de acolhimento de idosos, que também funciona como creche, nas proximidades da favela. Lá, Alzira troca confidências com amigos de sua idade e carinho com crianças que ainda estão aprendendo a falar.

Alzira mora praticamente sozinha há 10 anos, desde que sua irmã faleceu. Nunca se casou, nem teve filhos. Ela ajudou a criar os sobrinhos e agora convive com um de cerca 40 anos - ela não sabe a idade ao certo - que, por conta do trabalho e outros compromissos, passa mais tempo fora de casa do que dentro.

"Não é bom ficar em casa sozinha, não. Ainda mais na nossa comunidade. Esses anos estão horríveis, há muita violência", diz. "Eu tenho um cachorro e um gato em casa... o cachorro não fala, o gato também não", ironiza. "Tenho um quintal, então planto uma coisa e outra. Mas não é como [conviver com] um ser humano, né?"

O bom humor contrasta com o relato de uma vida dura. Na década de 1960, Alzira vivia na favela da Praia do Pinto, na Zona Sul do Rio, área de alto valor imobiliário. Até que um incêndio, cujas causas não foram esclarecidas, destruiu centenas de barracos da comunidade.

Ana Terra Athayde/BBC News Brasil
Centro de acolhimento de idosos, que também funciona como creche, atende moradores em situação de vulnerabilidade social Imagem: Ana Terra Athayde/BBC News Brasil

Ela era dona de uma pequena venda no local e perdeu praticamente tudo. Seu barraco foi parcialmente consumido pelo fogo, e ela passou a dormir no resto que sobrou.

Os moradores remanescentes da Praia do Pinto foram realocados para diferentes locais, e ela acabou se mudando para a Cidade de Deus. Ao longo da vida, Alzira trabalhou como empregada doméstica, auxiliar de serviços gerais e camelô.

Há 20 anos, já aposentada, conheceu o trabalho da Casa Emilien Lacay por meio de um amigo. Apelidada de "caçula", por ter sido a mais nova entre três irmãos, decidiu frequentar o lugar. Hoje, é uma das mais antigas da casa.

Convivência alentadora

O centro de acolhimento, que faz parte da Rede Cruzada, existe há 29 anos e atende gratuitamente cerca de 60 idosos e 200 crianças. A maioria mora na Cidade de Deus - e todos estão em situação de vulnerabilidade social. Em média, os idosos que frequentam a casa vivem com uma renda de um salário mínimo.

Além de poder usufruir das diversas atividades promovidas pelo centro, muitos vão ao local pela garantia de uma alimentação saudável. Juntos, todos têm aulas de capoeira, teatro e canto. Três vezes por semana, dois dos mais velhos leem livros infantis para os pequenos.

"Há crianças que já perderam irmãos, idosos que já perderam sobrinhos e filhos na violência, que infelizmente perpassa para a realidade de cada família que a gente atende", explica Márcia Bogea, coordenadora da casa.

Na rua onde Alzira mora há ao menos três senhoras que perderam parentes próximos em decorrência de confrontos armados e que agora vivem sozinhas. "Quando me mudei para a Cidade de Deus, a comunidade era mais tranquila", conta. "Nos últimos cinco anos, a violência ficou pior."

Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) mostram que a sensação maior de insegurança de Alzira tem fundamento. Em 2018, ano em que militares assumiram a segurança pública do Estado do Rio, uma pessoa foi morta a cada três dias, em média, na região da 32ª DP, que abrange a Cidade de Deus.

Os números de homicídios dolosos e mortes por intervenção de agentes do Estado voltaram a subir após terem baixado com a criação da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) na favela, em 2009.

Ana Terra Athayde/BBC News Brasil
Há 29 anos, o centro atende gratuitamente cerca de 60 idosos e 200 crianças - a maioria mora na Cidade de Deus Imagem: Ana Terra Athayde/BBC News Brasil

Interrupções forçadas

As frequentes trocas de tiros entre policiais e traficantes afetam as atividades do centro de acolhimento, localizado a menos de cinco minutos de carro da Cidade de Deus.

"Daqui a gente escuta [os tiroteios]. A direção fica preocupada com bala perdida e coloca todo mundo pra dentro", explica Alzira.

Antigamente, caso o transporte público fosse interrompido quando os confrontos começavam, ela ia a pé para o centro de acolhimento. Agora, por conta de sua mobilidade reduzida, acaba ficando em casa.

As limitações físicas afetam sua vida social como um todo. Apaixonada por samba, Alzira costumava desfilar no sambódromo todo Carnaval. Agora, não vai mais "para não prejudicar o desempenho das escolas".

Problemas de locomoção e de visão limitam o relacionamento de alguns idosos com crianças no centro. Mas, no geral, não impedem que troquem carinho e atenção. Muitas das crianças têm pais ausentes e são criadas apenas pelas mães. Como algumas famílias vieram do Norte e do Nordeste, o convívio com os avós nem sempre é possível. Alzira e seus colegas acabam suprindo essa ausência.

"As crianças os encontram na rua e os chamam de 'vovô' e 'vovó'. Há crianças que já saíram daqui e continuam em contato com os idosos. As mães as levam nas casas dos idosos porque foi criado um vínculo afetivo muito importante," conta Márcia.

"Eu me lembro muito das minhas crianças quando eram pequenas, porque eu não podia dar muito carinho e ficar com eles o tempo todo. Quando a gente trabalha fora, não tem tempo para quase nada", explica Quitéria dos Santos Dantas, de 71 anos. "Aquele carinho que você não pôde dar para os seus filhos, você pode dar pra eles, como se fossem os seus."

Lista de espera

Mãe de quatro filhos, a mais velha já falecida, Quitéria frequenta a casa há mais de dez anos. No início, ela resistiu aos convites de amigos para se juntar ao grupo, pensando que o lugar se tratava de um asilo e que ela perderia sua liberdade. Agora, é sempre uma das primeiras a chegar para passar o dia no centro, que funciona de segunda a sexta-feira.

A casa recebe verba de um convênio com a prefeitura e de apoiadores, originalmente direcionada às crianças. Mas o orçamento, que foi afetado pela crise nos últimos anos, é distribuído de forma a atender também os idosos.

Pessoas acima de 65 anos e crianças de até 4 anos e 11 meses passam por um processo seletivo que inclui uma análise socioeconômica e um sorteio. Atualmente, há lista de espera para entrar no centro.

"A nossa proposta é que as crianças saibam como é a realidade onde elas moram, mas também que existe um outro lado da vida, com carinho e amor. Para que elas cresçam sempre pensando no lado bom e venham a contribuir para o crescimento da sociedade," explica Márcia. "A gente acha que essa interação entre idoso e criança vai impactar em qual adulto essa criança vai ser."

O convívio também motiva os mais velhos a esperar por dias melhores. "Nós estamos indo e eles estão vindo [para este mundo], então a criança é uma esperança", diz Alzira.