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Por que dormir deveria ser a prioridade de todo estudante

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Estudantes que não dormem o suficiente devem ter mais dificuldade de lembrar informações Imagem: GETTY IMAGES

Christine Ro

BBC Future

10/10/2018 12h42

Jakke Tamminen tem alunos que costumam ficar acordados na noite anterior a uma prova, na esperança de assimilar a maior quantidade de conhecimento possível. Mas essa é "a pior coisa que eles podem fazer", alerta o professor de psicologia da Universidade Royal Holloway, do Reino Unido.

E eles deveriam saber disso. Tamminen é especialista em como o sono afeta a memória, especialmente a linguagem. O aprendizado durante o sono - outra ideia que atrai estudantes, ansiosos por, digamos, um áudio de ensino de língua que fosse tocado durante o sono e acordássemos falando latim - é um mito.

Mas dormir é essencial para o cérebro absorver conhecimento, e as pesquisas de Tamminen e de outros pesquisadores mostram o motivo disso.

No atual projeto de pesquisa de Tamminen, os participantes aprendem um novo vocabulário, e então ficam acordados por toda a noite. Tamminen compara o quanto eles lembram das palavras depois de algumas noites, e depois de uma semana.

Mesmo depois de várias noites de recuperação do sono, há diferenças importantes no quão rapidamente eles lembram daquelas palavras se comparado ao grupo de controle, que não foi privado de sono.

"Dormir é realmente uma parte central do aprendizado", explica. "Mesmo que você não esteja estudando quando está dormindo, seu cérebro está estudando. É quase como se ele estivesse trabalhando por você. Por isso você não terá o retorno esperado do tempo que aplicou aos estudos se não dormir bem."

Por dentro do cérebro adormecido

Estamos de pé no Quarto 1 do laboratório de Tamminen, um cômodo decorado apenas com cama, tapete colorido e borboletas de papel emolduradas. Acima da cama está uma pequena máquina de eletroencefalografia (EEG) e um monitor para detectar a atividade cerebral de cada participante do estudo, por meio de eletrodos instalados em suas cabeças.

Eles medem não apenas a atividade em diferentes regiões do cérebro (frontal, temporal e parietal), mas também a movimentação muscular (através de um eletrodo no queixo) e o movimento dos olhos.

No final do corredor está a sala de controle, onde os pesquisadores podem ver em tempo real quais são as partes do cérebro de cada voluntário sendo ativadas, por quanto tempo e em que medida. É fácil dizer quando um voluntário está na fase do Movimento Rápido dos Olhos (ou REM, na sigla em inglês) com base na atividade dos eletrodos fixados em seus olhos.

No entanto, o ponto mais crítico para a atual pesquisa de Tamminen - e ao papel do sono no desenvolvimento da linguagem de maneira geral - é a fase de sono profundo conhecida como Sono de Ondas Lentas (non-REM).

Esse estágio é importante para formar e reter memórias, seja de vocabulário, gramática ou outro conhecimento. A interação de diferentes partes do cérebro é essencial nesse caso. Durante o sono non-REM, o hipocampo, que contribui para o aprendizado rápido, está em constante comunicação com o neocórtex, que consolida a memória de longo prazo.

Por isso, o hipocampo codifica uma nova palavra aprendida durante o dia, mas para realmente consolidar aquele conhecimento - reconhecendo padrões e encontrando conexões com outras ideias que permitem a resolução criativa de problemas -, o sistema neocortical precisa estar envolvido.

Essa via expressa de informação entre o hipocampo e o neocórtex está repleta de "fusos do sono" - picos de atividade cerebral que não duram mais de três segundos.

"Os 'fusos do sono' estão de alguma forma associados com a ligação da nova informação às já existentes", diz Tamminen. E os dados dessa pesquisa sugerem que as pessoas com mais fusos consolidam mais palavras aprendidas.

Embora Tamminen foque na fase do Sono de Ondas Lentas, há a teoria de que o sono REM também tenha um papel no desenvolvimento da linguagem, através do sonho que ocorre durante essa parte do ciclo do sono.

Uma pesquisa do laboratório de sono e sonhos da Universidade de Ottawa, no Canadá, descobriu que o cérebro de estudantes sonhando em francês era capaz de fazer novas conexões com a língua que eles estavam aprendendo.

Os sonhos, afinal, são mais do que uma simples repetição do que aconteceu durante o dia. O estudo sugere que as regiões do cérebro que gerenciam a lógica (o lóbulo frontal) e a emoção (a amígdala) interagem de formas diferentes durante os sonhos, permitindo essas novas conexões imaginativas ao aprendiz da língua.

Estudantes aprendendo uma segunda língua tinham mais sono REM. Isso lhes deu mais tempo para integrar o que eles tinham aprendido enquanto dormiam - e levou a resultados melhores durante o dia.

Ritmos noturnos

Há um componente genético para o número de fusos do sono que temos. Há ainda uma base genética para o nosso relógio biológico, que nos indica quando é hora de dormir e acordar. E aderir a esses ciclos naturais é uma condição necessária para se atingir o pico de performance cognitiva.

Poucas pessoas conhecem mais esse assunto do que Michael W. Young, que em 2017 ganhou, junto a outros dois pesquisadores, o Prêmio Nobel de Medicina por seu trabalho sobre relógios genéticos. Young explica que para um funcionamento ótimo - seja na escola, no trabalho, ou em outras áreas da vida - "o que se quer fazer é tentar recriar um ambiente rítmico".

Quando o estilo de vida, o ambiente ou distúrbios hereditários provocam padrões distorcidos de sono, "uma resposta simples" poderia ser usar cortinas do tipo blackout à noite e luzes claras durante o dia para imitar os ciclos de luz e escuridão o tanto quanto possível.

Cochilos

Já o papel do ciclo circadiano no aprendizado do adulto é inquestionável, mas sua importância é ainda maior na infância.

Crianças têm mais Sono de Ondas Lentas que adultos - o que pode ser um fator para explicar o quão rápido as crianças aprendem, tanto na linguagem quanto em outras áreas.

O Laboratório do Sono da Criança, da Universidade de Tuebingen, na Alemanha, investiga o papel do sono na consolidação da memória dos pequenos. Ao monitorar o que acontece no cérebro da criança durante o sono e o quanto de informação elas retêm antes e depois de dormir, fica claro que o sono ajuda a acessar o conhecimento implícito (memória procedural) e torná-lo explícito (memória declarativa).

Adultos podem acessar esse tipo de informação aprendida durante o dia. Mas como explica a pesquisadora Katharina Zinke, "o sono realiza essa tarefa de forma mais eficiente em crianças".

"Os efeitos são mais fortes no início da infância porque o cérebro está se desenvolvendo", diz Dominique Petit, coordenador da Rede Circadiana e do Sono do Canadá, que também explorou o ritmo circadiano em crianças. Em termos práticos, isso significa que "as crianças precisam dormir durante o dia para lembrar o que elas aprenderam".

"O cochilo do dia em crianças novas é muito importante para o aumento do vocabulário, a generalização do significado das palavras e a abstração no aprendizado da linguagem", diz Petit. "Mas o sono continua a ser importante para a memória e o aprendizado ao longo da vida."

O sono não apenas ajuda a acessar essa informação como também modifica a forma como ela é acessada. Isso torna o cérebro mais flexível para reter informações (ou em sua capacidade de acessá-las de outras formas). Mas também o torna melhor em extrair as partes mais importantes delas.

"É na realidade um processo ativo de fortalecimento e de mudança do traçado da memória", afirma Zinke. "A memória é transferida de uma forma que a informação mais importante (a essência) é lembrada".

Claramente, tanto para crianças quanto para adultos, o sono prolongado não é sinal de preguiça. É essencial para as conexões cerebrais e para os ritmos corporais. Então, após uma sessão de aula de uma segunda língua, seja num aplicativo ou pessoalmente, é uma boa ideia ir dormir. Você se surpreenderá na manhã seguinte com o quanto absorveu.