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'Lesão cerebral provocada por espancamento brutal me deixou com risada patológica'

Headway
'A vida tem sido uma luta para mim', diz Pugh. Imagem: Headway

Beth Rose

BBC News

11/10/2017 16h00

Era a reunião mais difícil de sua vida. Paul Pugh estava sendo informado sobre como seria seu futuro após uma lesão cerebral. E riu durante todo o encontro, apesar de ter a sensação de estar chorando. Esse riso, mais tarde, seria explicado: ele acabou diagnosticado com risada patológica.

Tudo começou em 2007, quando Pugh, hoje com 37 anos, aproveitava uma noitada com seus companheiros de time, Cwmaman Football Club, e foi vítima alvo de um ataque inesperado. Ao sair de um pub em Carmarthenshire, sua cidade natal, no País de Gales, ele foi abordado por quatro homens desconhecidos, que começaram a espancá-lo e chutá-lo repetidas vezes.

Pugh sofreu traumatismo craniano e ficou em coma por mais de dois meses. Um coágulo de 10 cm x 4 cm se formou em seu cérebro, deixando algumas sequelas, como dificuldade de fala, fadiga crônica e dificuldade de mobilidade, que o levou à cadeira de rodas.

"Eu tive de aprender a caminhar e conversar novamente e aceitar o fato de que nunca me recuperarei completamente", diz. "A vida tem sido uma luta para mim e minha família, mas estamos batalhando", completa. Pugh passou 13 meses no hospital - por volta do quarto, teve seu primeiro ataque de riso.

"Era uma reunião séria com meu especialista, meu fisioterapeuta e minha família para discutir como seria minha vida e meu futuro", recorda. "Quando eles começaram a falar sobre mim, fiquei assustado e isso desencadeou algo no meu cérebro: eu ri durante toda a reunião." "Na verdade, eu estava chorando copiosamente, mas externamente saiu como riso."

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Paul Pugh ficou em coma por mais de dois meses após ser brutalmente espancado. Imagem: Headway

Ceticismo

A princípio, ninguém entendeu seu comportamento. Até a família achou que ele estivesse "fazendo cena em público, que queria chamar a atenção".
Passaram-se vários anos até que os ataques de riso de Pugh fossem diagnosticados como risada patológica, ou doença pseudobulbar (conhecida como PBA, na sigla em inglês, ou incontinência emocional).

A condição aparece quando há uma desconexão entre o lobo frontal do cérebro, que mantém as emoções sob controle, e o cerebelo e tronco cerebral, que regulam a expressão da emoção. Trata-se de uma verdadeira linha cruzada. A PBA pode afetar pacientes com determinadas condições ou lesões neurológicas, como acidente vascular cerebral, esclerose múltipla ou Alzheimer.

"O termo se refere à expressão descontrolada da emoção que é desproporcional ou inapropriada ao contexto social, e pode ser inconsistente com o que a pessoa realmente está sentindo", explica Andy Tyerman, neuropsicólogo clínico da Headway, instituição voltada para reabilitação após lesões cerebrais. "A pessoa também pode parecer muito aflita em relação a algo que antes seria pouco perturbador", completa.

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Em 2014, Pugh lançou campanha para educar as pessoas sobre a violência incitada pelo álcool Imagem: Headway

No caso de Pugh, ele riu quando pensou que estava chorando. "Eu sei quando estou rindo ou chorando, mas outras pessoas não", diz. "Alguns ficam aborrecidos e reagem sendo sarcásticos comigo, ou até mesmo com agressividade, e tentam ferir meus sentimentos porque acham que estou rindo deles", conta. "É incrível o quão importante a risada é. Você nunca pensa nisso, mas ela tem um efeito muito poderoso, compartilhar uma piada com alguém é algo especial."

Cuidados

Pugh conta que sua família é muito compreensiva. Sua mãe virou sua cuidadora em tempo integral, auxiliando na questão da mobilidade. Seu pai, de 72 anos, ainda trabalha, e seus irmãos - Simon e Matthew - também o ajudaram na última década. Ele diz que o diagnóstico o "atingiu em cheio" e que às vezes atrai atenção indesejada, mas que agora consegue sentir quando um episódio de riso patológico é iminente.

"Eu sinto uma risada chegando alguns segundos antes - às vezes consigo controlar, mas tem vezes que o som sai. A risada não dura muito, um minuto no máximo, mas pode causar muitos problemas se as pessoas não entenderem." Pugh desenvolveu seu próprio método para evitar uma crise - "pensando em algo ou alguém ruim, mas sem sentimento" - e estima conseguir controlar nove entre cada dez ataques de riso.

Os últimos dez anos têm sido "extremamente duros", conta. Ele teve de abrir mão do trabalho como eletricista e agora passa seu tempo em terapias ou visitas à instituição Headway, que lhe deu "uma perspectiva sobre como é estar com pessoas com lesões cerebrais" e mostrou que ele não estava sozinho.
"Desde o incidente, encontramos as pessoas mais incríveis do mundo, todas querendo me ajudar", diz.

"Por outro lado, me sinto como se estivesse sob prisão domiciliar porque a lesão afetou minha mobilidade e equilíbrio, preciso de ajuda sempre que saio de casa", acrescenta.

Contra a violência

Em 2014, Pugh deu início à Paul's Pledge, uma campanha para educar as pessoas sobre a violência incitada pelo álcool, que também tem a participação da polícia local. Pugh faz visitas a escolas, faculdades e clubes juvenis e, segundo ele, a resposta tem sido "absolutamente fantástica" - "eles podem ver que é real, e não teatral".

"Esta é a minha vida agora - eu superei o que aconteceu", conta ele. "Há muitas coisas que eu não posso fazer - mas esta (campanha) eu posso. Eu acho que ela passa uma mensagem poderosa para o mundo. Eu não quero ver ninguém na situação em que eu e minha família ficamos." Os quatro homens responsáveis ??pelo ataque a Pugh foram condenados com penas de nove meses a quatro anos de prisão.

"Aquele que me chutou com toda a força na cabeça, e quase me matou, foi solto. E quanto a mim? Dez anos depois, ainda estou cumprindo minha sentença", conclui.

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