! Janeiro Branco: a história de cinco pessoas que superaram transtornos mentais

Curando Sentimentos

Da depressão à anorexia: cinco pessoas contam como recuperaram sua saúde mental

Gabriela Ingrid e Vivian Ortiz Do VivaBem

O primeiro passo para a cura: fale sobre o problema e procure ajuda

Sérgio comia 15 pedaços de pizza por noite, Letícia chegou a tomar água do esgoto para emagrecer e Felipe tentou se matar três vezes. Isabella conviveu com palpitações que a paralisavam e Fabiana sentia um medo irracional. Apesar de histórias diferentes, todos sofrem de transtornos mentais: Compulsão Alimentar Periódica, Anorexia Nervosa, Transtorno Depressivo, Ansiedade e Pânico.

Essas doenças nascem silenciosamente. Aparecem após uma situação traumática ou, como na maioria dos casos, em doses homeopáticas --com aquele acúmulo de emoções mal resolvidas diárias que acaba se tornando uma doença. E para melhorar é preciso encarar que ter um transtorno mental não é um palavrão e pedir ajuda é o primeiro passo.

"É fundamental criar a cultura de falar abertamente sobre as emoções, já que a mente também precisa de cuidados. E não adianta achar que consegue cuidar dela sozinho, muito menos se automedicar. Não tenha medo nem vergonha de assumir que precisa de ajuda", acredita Leonardo Abrahão, psicólogo e idealizador da campanha Janeiro Branco, que promove a conscientização sobre saúde mental.

As cinco pessoas do começo deste texto contam ao VivaBem, como superaram ou, ao menos, aprenderam a lidar com suas doenças.

Carine Wallauer/UOL Carine Wallauer/UOL

"Regime não funcionava, meu problema era na mente"

Sérgio Bartolo, 49, diagnosticado com Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica em 2017

“Tenho uma padaria e administro cerca de 20 funcionários. Cuidar de um negócio sozinho com pães e doces à disposição diariamente fez com que eu descontasse todo o nervoso e estresse na comida. Com 1,58m de altura, cheguei a pesar 90kg em junho de 2017.

Tentei um regime por conta própria que não funcionou. Meu problema estava na mente. Então, depois de minha mulher insistir, comecei um tratamento psicológico e reaprendi, por meio de um método de emagrecimento, a comer.

Não tomei remédio nem restringi alimentos. Apenas reeduquei meus hábitos alimentares e vi que, em vez de descontar meu estresse na comida, eu deveria sentar, respirar, pensar no problema e tentar achar uma solução.

O tratamento me ensinou que é preciso esperar ter fome para comer, alimentar-se de forma devagar, saborear a refeição e, quando estiver saciado, é hora de parar de comer. Hoje minha relação com a comida é outra e frequento uma terapia em grupo semanalmente.

Conversamos sobre o que sentimos e aprendemos a procurar uma solução para os problemas. Perdi 14kg em seis meses. Ainda não cheguei no meu objetivo, faltam 8kg, mas estou feliz com o resultado.

Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica

  • O que é

    Ingestão de uma quantidade de alimentos definitivamente maior do que a maioria das pessoas consumiria em um período similar, com sentimento de falta de controle durante o episódio.

    Imagem: Arte/VivaBem
  • Sintomas

    Sensação de falta de controle ao comer; comer muito e mais rapidamente do que o normal; comer até sentir-se incomodamente repleto; consumir grandes quantidades de alimentos, mesmo sem fome; sentir repulsa por si mesmo, depressão ou culpa após comer excessivamente.

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  • Tratamento

    Terapia cognitivo-comportamental; terapia comportamental; psicoterapia focal; psicoterapia interpessoal; psicoterapias psicodinâmicas e intervenções psicoeducacionais. Elas podem ser aplicadas individualmente ou em grupo.

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"Cheguei a tomar água do esgoto para ter intoxicação alimentar"

Letícia Ferri, 22, diagnosticada com Anorexia Nervosa em 2010

"Eu tinha 11 anos quando comecei a idolatrar a atriz mexicana Anahí Portilla*, uma das estrelas da novela ‘Rebelde’. Minha meta era ser como a personagem Mia, com o mesmo corpo, cabelo, pele, voz e, especialmente, barriga. Penso que a minha doença teve início naquela época, quando deixei de me aceitar para tentar ser como alguém que eu não era e nunca seria.

Foi pesquisando no Google, que descobri os sites que falavam sobre ‘as regras’ da anorexia e, cada vez, ficava mais magra. Estava amando. Meus pais não entendiam e foi duro aceitarem a ideia de que eu estava doente porque não comia. Por muito tempo, eles fecharam os olhos e achavam que eu fazia isso para chamar a atenção.

Aos 14, fiquei três dias sem comer até que desmaiei na escola. Eu estava pesando 37 kg, com 1,60 m de altura. Acabei parando no hospital; foi aí que comecei um acompanhamento. Passei um tempo fingindo que havia aceitado o tratamento e não dando tanto trabalho.

Até engordei, mas, depois de uma tentativa frustrada de ser modelo, tive uma recaída. Não comia nada: só fruta. Esse foi o momento em que realmente convivi com a doença. Precisei da ajuda de uma nutricionista comportamental, um psiquiatra e uma terapeuta para sair dessa.

Por fim, aceitei que tenho uma doença e que preciso de tratamento. Hoje estou bem e continuo com acompanhamento, mas aprendi a lidar melhor com meu corpo e com os alimentos. Me apaixonei tanto por alimentação saudável, que vou começar um curso de nutrição este ano. 

* A atriz Anahí também foi diagnosticada com Anorexia Nervosa.

Anorexia Nervosa

  • O que é

    Transtorno alimentar que faz com que a pessoa se enxergue de maneira distorcida, geralmente acreditando que está muito acima do peso que realmente está.

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  • Sintomas

    Preocupação excessiva com o que come, restrição alimentar severa e perda de peso em excesso. O paciente também procura as mais variadas desculpas para o fato de não estar comendo ou de estar passando mal com frequência.

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  • Tratamento

    É fundamental a pessoa reconhecer que tem uma doença. Costumam ser utilizados diferentes tipos de psicoterapias, como terapia comportamental cognitiva individual, terapia de grupo e a terapia familiar, além de acompanhamento alimentar.

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"A ansiedade me paralisava, perdi várias oportunidades"

Isabella Gião, 28, diagnosticada com Transtorno de Ansiedade em 2015

“Sofro com a doença desde criança. E apesar de fazer terapia desde os 11 anos, foi só com a terapeuta que me trata hoje que entendi que tudo começou após o falecimento do meu avô, quando eu tinha nove anos.

As crises batiam mais forte quando tinha de tomar decisões, ficar sozinha ou ter uma grande responsabilidade em mãos. Sentia palpitações absurdas, meu corpo ficava amortecido. A sensação era de que um peso havia caído em cima do meu corpo, paralisando-o.

A minha ansiedade era depressiva e foi só quando tive uma crise de depressão muito forte que decidi buscar ajuda. Foi uma pequena vontade de viver que eu nunca tinha sentido antes e que me fez tentar melhorar, mesmo não acreditando ser possível.

Cheguei a tomar remédio, mas foi só quando fui a essa terapeuta que não teve pena de mim e me deu uns ‘tapas na cara’ que comecei a despertar. Também comecei a fazer ioga, a correr no parque e meditar. Percebi que parte do problema some quando eu me alimento melhor e faço exercícios.

Hoje a ansiedade continua fazendo parte minha vida. Ainda tenho medo, mas vejo que, quanto menos eu nego que estou mal, mais espaçadas ficam minhas crises.”

Transtorno de Ansiedade

  • O que é

    Uma reação emocional desencadeada pela percepção de uma ameaça real ou imaginária.

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  • Sintomas

    Quando ansiosa, a pessoa antecipa uma situação, que pode nunca acontecer. O corpo responde a esse estado com taquicardia, sudorese, tensão muscular, problemas digestivos ou dor de cabeça. A dificuldade de pensar com clareza também atrapalha. Em excesso, ainda pode causar compulsões por comida, álcool ou cigarro, por exemplo.

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  • Tratamento

    É aconselhável buscar um psiquiatra e um psicoterapeuta. Dependendo do grau, atitudes simples, como meditar e praticar exercícios físicos, também podem amenizar os efeitos nocivos.

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"Nunca cogitei que tivesse algum problema até tentar me matar"

Felipe Oliveira, 25, diagnosticado com Transtorno Depressivo em 2011

“Minha primeira tentativa de suicídio foi em 2011. Antes disso, a única coisa que eu reparava em mim era que tudo tinha que estar na mais perfeita calma. Se algo saía do lugar, ficava extremamente irritado e, depois, caía em depressão. Era tudo tão dolorido que eu simplesmente queria morrer.

Havia desistido de prestar vestibular, ficava o dia todo isolado no quarto, cheguei a passar 19 horas dormindo. Só levantava quando surgia algum resquício de fome.

Depois da minha primeira tentativa de suicídio, meus pais começaram a dormir no mesmo quarto que eu, para ficar de olho. Mesmo assim, com eles lá, continuava planejando como iria morrer. Após muita insistência, meus pais me convenceram a procurar um psiquiatra.

Cheguei a tomar seis remédios por dia. Ficava tão tonto que precisava de ajuda até para escovar os dentes. Aos poucos, fomos acertando a dose dos remédios, até conseguir viver normalmente, mas, por insistência da minha namorada, fui para a terapia, que promoveu uma verdadeira reviravolta na minha vida.

As sessões me ajudaram a ter mais consciência, aprendi a me acalmar. Hoje, evito discutir com pessoas sobre assuntos, como futebol ou política. De vez em quando, ainda tenho alguns sintomas, como crises de choro, mas respiro, conto até dez e me acalmo. Agora, só preciso tomar remédio quando tenho uma crise mais incontrolável.”

Transtorno Depressivo

  • O que é

    Doença com componentes psicológicos e físicos --quando existe um desequilíbrio na comunicação entre os neurônios no cérebro. Estudos concluíram que isso acontece por diversos motivos, mas, de forma geral, a culpa é da atuação desregular dos neurotransmissores nos neurorreceptores.

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  • Sintomas

    Desinteresse por atividades que gostava, sensação de tristeza, insônia, fadiga, sono ou fome excessivos, ganho ou perda de peso, apatia, sentimento de culpa, falta de concentração e, em casos mais graves, pensamentos suicidas.

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  • Tratamento

    Muitas vezes, é necessário o uso de medicação. Também é importante conversar sobre o assunto com o auxílio de alguma terapia.

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"Ficava trancada no quarto, debaixo de um cobertor"

Fabiana Mariz Moreira, 42, diagnosticada com Transtorno de Pânico em 2008

“Os sintomas apareceram pela primeira vez quando eu tinha 18 anos. Não havia nada em especial acontecendo na minha vida, mas senti taquicardia e muito medo. Pensei que era normal e segui em frente. Aos 27, os sintomas voltaram com força.

Comecei a 'via sacra' de hospital em hospital para descobrir o motivo, mas nunca encontrava nada. Nessas idas ao pronto-socorro, um plantonista finalmente falou do pânico, mas eu não aceitava. Até quando fiquei bem ruim e os sintomas foram se agravando. Não conseguia nem levantar da cama, com medo de passar mal.

Achava estranho porque, fora isso, minha vida estava tranquila. Um especialista me indicou um remédio, mas neguei e continuei indo em outros médicos, atrás da ‘causa correta’. Até que aceitei tomar a medicação, pois estava paralisando minha vida.

Para mim, a aceitação foi uma das piores partes. Não acreditava que eu precisaria tomar remédio para me manter em equilíbrio. Sempre achei que faria o tratamento e diria adeus às drogas, mas não foi o que aconteceu.

Os efeitos colaterais também não foram fáceis, pois acabei engordando. Mas decidi que era melhor ser uma gordinha sem crise do que magra e sem liberdade de ir e vir."

Transtorno de Pânico

  • O que é

    Uma liberação de adrenalia e noradrelanida de forma desregulada no ser humano, que o corpo não entende e reage com crises inesperadas de desespero e medo intenso de que algo ruim aconteça.

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  • Sintomas

    Pode vir com sensação de perigo iminente, ondas de calor ou calafrios, hiperventilação e tremores, entre outros.

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  • Tratamento

    Normalmente, é feito o uso de benzodiazepínicos ou antidepressivos, mas não é só isso. O paciente deve ter acompanhamento psicológico, além de praticar atividades físicas e mudar a dieta.

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