menu
Topo

Coluna

Paulo Chaccur

Adolescentes acima do peso: entenda quando existe perigo ao coração

Getty Images
O excesso de peso nessa faixa etária pode ter consequências cardiovasculares Imagem: Getty Images
Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL

25/11/2018 04h00

É com certa nostalgia que me lembro dos meus tempos de infância, jogando futebol à tarde, logo depois da escola. Nadar também era uma atividade frequente, assim como brincar livre pelo quintal. Hoje, com a verticalização das cidades, o espaço para a brincadeira passa a ser a área de lazer dos prédios, espaços nem sempre ocupados diariamente pelos moradores.

Para as crianças, o ambiente mais utilizado passa a ser o doméstico, impossibilitando a prática esportiva. O movimento, então, fica restrito à escola, o que não compensa a ociosidade em grande parte da semana. O que pode chamar a atenção dos pais é o peso da criança, levando a uma reflexão de como está o equilíbrio entre alimentação e os exercícios e, principalmente, a qualidade destes alimentos.

Os pais passam a ficar com a seguinte preocupação: como a obesidade na infância, adolescência, pode trazer impactos na saúde cardiovascular? Será que estar acima do peso é indício que meu filho terá problemas graves no coração? Isso não é verdade, felizmente. Mas os responsáveis devem entender que o órgão, de acordo com o peso do jovem, terá um trabalho a mais para manter o metabolismo. É uma sobrecarga, e o coração pode apresentar uma certa hipertrofia muscular para fazer essa adaptação.

A obesidade, sim, de qualquer maneira, exige mudanças na rotina desta criança, inserindo momentos mais ativos e garantindo uma alimentação que não seja formada apenas por refeições rápidas, como pães, biscoitos e salgadinhos. Além de não atenderem às necessidades nutricionais dos adolescentes, este padrão pode determinar como estará a saúde destes indivíduos no futuro.

Atenção ao histórico familiar

Em consultório, chegamos a acompanhar pessoas que sempre foram obesas, inclusive na adolescência, mas que não apresentam hipertrofia do ventrículo esquerdo, ou seja, não possuem alterações na anatomia do músculo cardíaco. A mesma preocupação ocorre com o excesso de gordura corporal, com a ideia de que possa elevar o nível de colesterol, mas nem sempre isso é observado. É importante destacar que algumas pessoas possuem predisposição genética para obesidade e isso não quer dizer que seja um fator de risco. É preciso ir um pouco além do que somente o fator peso.

Os pais precisam estar atentos ao histórico familiar, cientes sobre a possibilidade de diagnósticos na família, especialmente de doença coronária. Observar também se os parentes próximos possuem níveis de colesterol mais elevados. Surge aqui o primeiro sinal de alerta para o adolescente acima do peso: se o histórico apontar para doença coronária na família e, além de tudo, geneticamente, essa família possuir colesterol elevado, a obesidade aparecerá como um fator que potencializará o surgimento de doenças.

Voltamos a pensar na criança que não pratica atividade regularmente, que pode não ter o hábito de se sentar à mesa para uma refeição completa com arroz, feijão, carne, legumes e verduras. Diante do histórico familiar, essa situação, sim, passa a gerar preocupação.

Um adolescente que pratica atividade física regularmente, de forma intensa, acaba tendo uma estrutura musculoesquelética totalmente diferente. Ele terá um desenvolvimento maior do tórax, especialmente nos jovens que praticam natação. No futuro, essas pessoas terão uma memória muscular muito maior do que os adolescentes que não praticaram esportes. Então, mesmo que esse indivíduo possa interromper o exercício regular por um período, o corpo sempre sairá com essa vantagem. Ao ponto que o sedentário precisa superar mais uma barreira na adoção do movimento.

Os pais precisam ter o entendimento de que brincar, jogar futebol, nadar, entre outras, são atividades que favorecem a estrutura física das crianças, especialmente no auge de seu desenvolvimento. Quem não o faz, não pratica, precisa que a genética seja privilegiada para garantir uma condição melhor até o momento em que essa pessoa queira, enfim, praticar esportes.

Quando procurar ajuda

Os pais devem observar se a criança demonstra cansaço e se ela relata não acompanhar os amigos da turma no esporte. Nesse momento, o profissional de educação física também pode auxiliar os responsáveis relatando como está o desempenho da criança durante as atividades esportivas no ambiente escolar. Os jovens com quadros respiratórios, como a asma, precisam de um acompanhamento especial para investigar se há algo por trás dessa condição pulmonar, se não existe uma cardiopatia desencadeando essa situação. O cansaço e a condição respiratória são, portanto, sinais de alerta que exigem investigação.

A obesidade será um fator preocupante quando existir a combinação com o fator genético. Quando o adolescente perde peso, reduz medidas, ele provavelmente não terá nenhuma alteração cardiológica. Mas são fatores muito individuais que precisam ser analisados caso a caso, dentro de um contexto maior, como o histórico familiar.

O ponto positivo é que, mesmo após um quadro de obesidade mórbida, com a cirurgia bariátrica na fase adulta, uma pessoa pode chegar a ter um peso próximo do ideal, com a reversibilidade de fatores preocupantes, como uma doença metabólica, como o diabetes, ou uma hipertensão. Mas para que os nossos jovens não cheguem a casos tão extremos, a mudança deve vir agora, ensinando que o investimento em qualidade de vida é um dos maiores legados que podemos deixar aos nossos filhos.

SIGA O UOL VIVABEM NAS REDES SOCIAIS
Facebook - Instagram - YouTube