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Paulo Chaccur

Ser atleta de fim de semana faz bem ao coração? Veja riscos e cuidados

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Praticar esportes sem consultar um cardiologista pode ser perigoso Imagem: iStock
Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL

28/10/2018 04h00

O cenário se repete de segunda a sexta: uma pessoa, sobrecarregada com os compromissos de trabalho, filhos ou estudos, encontra pouco tempo para uma refeição equilibrada e adequadas horas de sono. Naturalmente, essa agenda apertada nem sempre comporta minutos para a prática de exercícios. A válvula de escape passa a ser o fim de semana, em que pedalar ou jogar uma partida de futebol se torna uma forma de garantir momentos de relaxamento.

Mas será que a prática esportiva somente aos fins de semana garante bons níveis de saúde? Acerta quem responder que não, com o alerta de que esse comportamento pode ser perigoso para o corpo, especialmente se os esportistas não respeitarem suas limitações e desconhecerem a preexistência de doenças cardiovasculares.

Caso a pessoa não tenha possibilidade de praticar exercícios com regularidade, caminhar por até uma hora e meia no sábado ou no domingo não exige grande esforço e nem representará um elevado risco cardiovascular. O risco existe, mas é baixo. Então, para fazer esse tipo de atividade leve, primeiro é necessário saber se possuímos uma condição cardiológica boa.

Possuir alguma doença, como arritmia cardíaca (alterações do ritmo do coração), eleva o risco de uma prática sem acompanhamento, podendo ocasionar morte súbita, que é uma grande preocupação da população.

Procurar um médico é sempre o primeiro passo

Numa outra fase, em que o indivíduo, além de caminhar, inicia em algum momento a corrida, o risco cardiovascular aumenta. Por exemplo, quando o teste de esforço é realizado na esteira ergométrica, a frequência cardíaca e a pressão arterial sobem, gerando uma sobrecarga ao coração. Por esta razão, o exame é solicitado por médico especialista e feito em ambiente controlado. O resultado indicará caso o coração não esteja em situações normais.

Um conselho seria o esportista não trabalhar com a frequência acima de 120 a 140 batimentos, que é considerada uma faixa bastante razoável. Se usarmos como referência uma pessoa jovem, saudável, a frequência poderia chegar a 180, 190 batimentos em esforço. Mas se trabalharmos no nível anterior contamos com uma margem de segurança.

À medida que o indivíduo melhora sua condição cardiomuscular, ele vai conseguir desempenhar o exercício com mais agilidade, atingindo maior velocidade na corrida. Mas antes de tudo isso ele precisa saber se ele está em condições cardiovasculares adequadas para enfrentar essa situação, ou seja, visitar um cardiologista. O atleta de fim de semana, avaliado pelo médico, poderá desempenhar um esporte com atividade física intensa.

O problema é que as pessoas, às vezes, minimizam a gravidade da situação. Chegamos a receber pacientes com dores no peito enquanto caminham, quando fazem um esforço maior, e eles não valorizam este sinal. Ao ponto de chegarem ao cardiologista nas fases mais acentuadas do problema, já com eventos cardiológicos preocupantes. Com avaliação e acompanhamento, a chance de ter uma complicação é muito menor.

Problemas ocultos

Mas é possível que alguma doença desconhecida se manifeste nessas práticas? Na vigência do esforço físico, sim. A doença coronária pelo estresse do exercício acaba desequilibrando a oferta de oxigênio do músculo para determinada necessidade. O coração nessa desproporção acaba entrando num processo de arritmia. E o indivíduo que tem uma isquemia miocárdica importante poderá fazer uma arritmia com gravidade, levando a uma parada cardíaca.

O cansaço, numa situação desproporcional, é o primeiro indício de que algo não vai bem. Se o esportista estiver com alguém e perceber que está se mostrando mais cansado do que o companheiro, isso já pode ser um sinal de mau funcionamento do desempenho do coração. O outro aspecto é sempre a dor torácica. Nessa situação de isquemia do miocárdio, existe risco para evento de infarto e arritmia cardíaca. Não é comum, mas dores nas costas, às vezes um aperto no pescoço, um incômodo na mandíbula, tudo isso poderá caracterizar problemas com o coração, principalmente quando desencadeados pelo esforço.

O indivíduo precisa, antes de tudo, entender a sua limitação. Primeiro, do ponto de vista músculo esquelético; depois, a condição cardiorrespiratória. Compreender, principalmente, que o condicionamento será adquirido com a constância da atividade física. E isso, infelizmente, não se conquista apenas aos finais de semana. É preciso muito treinamento para tolerar uma intensidade maior e obter um desempenho melhor.

Expectativa x realidade

A recomendação cardiológica, quando falamos em doença cardiovascular, indica o exercício com frequência diária. Caminhar por meia hora, estendendo até 45 minutos, seria a situação ideal até mesmo para os cardiopatas. Uma forma ótima de condicionamento e profilaxia para doença. Não podendo fazer todos os dias, o exercício poderá ser feito três ou duas vezes por semana, com alguma outra prática aos fins de semana. Mas uma caminhada mais intensa, não o caminhar no shopping, por exemplo.

A periodicidade é importante para alcançar o bom condicionamento físico. Quando interrompemos os exercícios por uma semana, 15 dias, percebemos o quanto perdemos essa condição. Perdemos de forma rápida o que demoramos para conquistar. Além de garantir os bons níveis de saúde, o exercício traz um bem-estar muito grande, em função da liberação de endorfina, de substâncias que dão saciedade, relaxamento e prazer. Tudo o que as pessoas que praticam exercícios no fim de semana mais buscam.

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