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Dante Senra


Depressão é doença comum e tem crescido: entenda como lidar e identificar

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Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

2019-05-04T04:00:00

04/05/2019 04h00

Em 1932, Santos Dumont enforcou-se com sua gravata em um hotel de São Paulo. O eterno coringa, Heath Ledger em 2008, deu fim a sua existência ingerindo mais de sete tipos de medicamentos diferentes de uma só vez. Marilyn Monroe, Robin Williams. A lista é infindável.

Ou seja, nem talento, glamour, dinheiro e admiração alheia podem salvar alguém acometido pelo vazio existencial profundo causado pela depressão ou retomar a essência da vida fundamentalmente valiosa.

Mas embora a depressão seja a maior causa de suicídio, e responsável por 85% dos 850 mil que acontecem por ano no mundo, a maioria das pessoas acometidas por este quadro consegue resistir ao nefasto convite e, quando não procuram ajuda, estabelecem uma relação com a vida marcada pela angústia e sofrimento.

Um espinho na alma, um mundo sem cor; use a metáfora que desejar, mas o fato é que ter esse diagnóstico é entrar em um ciclo vicioso pessimista de onde é difícil de sair sem ajuda.

Impiedosa, a depressão atinge a todas idades, gêneros e classes sociais. Uma em cada cinco pessoas será acometida durante a vida em algum grau.

Dados publicados recentemente pela Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que 350 milhões de pessoas pelo mundo sofrem de depressão, 18% a mais do que há dez anos. O número representa quase 5% da população do planeta. No caso do Brasil, a OMS estima que 7,5% da população nacional seja afetada pela depressão.

Caracterizada como um dos principais problemas de saúde pública no mundo (custos diretos e indiretos nos EUA de quase US$ 50 bilhões), estima-se que no Brasil quase 100 mil pessoas são afastadas do trabalho todos os anos por conta desse diagnóstico.
Não é difícil encontrar pessoas que já passaram ou passam por isso atualmente.

Como explicar?

Vivemos um mundo em crise, em desconstrução, onde somos convidados a todo momento a perder as referências de dignidade, morais e éticas.

O grau de exigência a que somos submetidos e a dificuldade de atender as expectativas estão entre as principais causas. Crescemos aprendendo a sonhar alto, a vencer sempre, com a obrigação de ganhar bem e dividir nosso tempo com quem amamos. De amarmos e, ainda mais difícil, de sermos amados. Nos ensinam a perseguir objetivos nem sempre tangíveis, ser sincero sem deixar de ser gentil e sermos ousados sem perder o chão. É o que chamo de "culto à frustração". E ainda, o tempo passa e percebemos que resta pouco tempo para sermos como gostaríamos, ou como gostariam.

Assim, depressão não é consequência de uma escolha pessoal, ou sinal de fraqueza como alguém menos informado possa sugerir, mas advém da luta contra as adversidades da vida, frustrações, desapontamentos, exigências extremas ou tudo isso. Soma-se a isto uma tendência, um traço de personalidade ou talvez uma herança genética.

Paradoxalmente também existe a chamada depressão pós-nada. Nada te aconteceu aparentemente, mas você fica deprimido mesmo assim. E por isso mesmo, nada aconteceu na sua vida...

Ainda, algumas doenças físicas como o hipotireoidismo, a doença de Parkinson e até o diabetes por exemplo, podem ter como primeira manifestação a depressão.

Como identificar?

Embora a característica mais marcante dessa doença seja a tristeza injustificada que perdure por mais de duas semanas, ela nem sempre é relatada pelos pacientes. Entre os sintomas estão a autodesvalorização, a desesperança, baixa produtividade, sentimento de inadequação, retraimento social tornando-se amigo da solidão, o humor irritável e a incapacidade ou desinteresse para fazer planos para o futuro.

Os sintomas costumam transitar entre os extremos. Queixas como falta ou excesso de sono, de apetite e do desinteresse sexual também são frequentes, embora poucas vezes sejam diagnosticadas como tal. Lembre-se que o mau humor crônico também pode ser prenúncio de depressão.

Como lidar com a depressão?

Embora existam tratamentos eficazes conhecidos para depressão, menos da metade das pessoas afetadas no mundo (em muitos países, menos de 10%) recebe tais tratamentos. Ainda, a metade dos pacientes tratados demorou em média seis meses para procurar um médico após os primeiros sintomas. Um terço desses pacientes abandonou o tratamento no primeiro mês por não apresentar a melhora esperada ou por julgar que a pouca melhora foi suficiente.

Esse abandono ainda pode se dever a uma postura preconceituosa dos pacientes, da sociedade ou dos familiares em relação a este diagnóstico, bem como o desconhecimento de que pode em alguns casos, demorar meses para apresentar melhora significativa dos sintomas. Muitos ainda, tem medo que os medicamentos lhes dêem uma visão distorcida da realidade. Digo com frequência a eles: você que está com essa visão alterada. O medicamento é como colocar o óculos na sua visão míope para que ela se torne nítida e real.

Mas do fundo do coração, os pacientes sabem que os medicamentos não curam a depressão no sentido que antibióticos curam a infecção e frequentemente os recusam, entretanto associá-los com a psicoterapia ainda é a melhor maneira de enfrentar esse difícil momento. Esperar que ela passe sozinha é um erro grosseiro, pois a tendência é em outro sentido.

Considere ainda que o indivíduo com depressão tem um risco aumentado de desenvolver outras doenças como por exemplo o diabetes, e também quase dobra o desenvolvimento e a mortalidade de doenças cardiovasculares. Como se faltassem motivos para procurar ajuda, existem ainda fortes evidências que demonstram queda da imunidade em indivíduos deprimidos, fazendo surgir ou eclodir vários tipos de tumores.

Portanto amigo, se esta faltando a sexta-feira na sua semana, procure auxilio medico rápido e sem preconceito, porque engana-se quem diz que vivemos apenas uma vez. Nos morremos apenas uma vez, mas vivemos todos os dias!

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL