menu

Topo

Movimento

Inspiração pra fazer da atividade física um hábito


Teste de pisada é indispensável para escolher o tênis certo para correr?

iStock
Na hora de escolher um tênis, o principal é observar se ele ficou confortável Imagem: iStock
Cláudio Mesquita

Cláudio Mesquita

Fisioterapeuta formado pela USP e Pós graduado pela USP, UNIFESP e Kaiser Foundation, seu trabalho sempre se focou no atendimento de indivíduos com lesões e queixas ortopédicas e esportivas, embora tenha trabalhado também com pacientes portadores de disfunções neurológicas.

Colunista do UOL VivaBem

14/11/2018 04h00

Uma dúvida muito comum de quem corre é como escolher o calçado ideal para treinar. A resposta, frequentemente, vem de bate-pronto: "Deve-se fazer o teste da pisada para descobrir sua pisada".

Em seguida, a pessoa explica: "A pisada pronada é aquela na qual ocorre um desabamento da parte interna do pé ao apoiá-lo no solo e você precisa de controle de movimento. Na pisada neutra esse 'desabamento' é pequeno. E na pisada supinada ele não ocorre e você necessita de mais amortecimento". A ideia é que, com essa informação, o atleta poderia adequar o tênis à sua pisada. Assim, estaria mais protegido de lesões.

Parece perfeito, não? Parece, mas não é.

Em primeiro lugar, na maior parte das vezes o que é chamado de teste da pisada é feito de forma estática. Ou seja, avalia-se a postura do pé (pronado, supinado ou neutro). Outras vezes é feito com a pessoa caminhando (a pisada andando pode ser diferente da correndo). Uma coisa é a postura do pé (avaliada de forma estática), outra coisa é a pisada em si (avaliada em movimento). E, no caso de corredores, a pisada deveria ser avaliada com o atleta correndo!

VEJA TAMBÉM:

A postura do pé é fator de risco para lesões?

A resposta para essa pergunta parece ser positiva. Ter pés com maior "queda para dentro" (pronação) parece ser um pequeno fator de risco para a canelite (síndrome do estresse tibial medial). Ótimo, temos a resposta em relação à postura. Mas e em relação ao teste feito em movimento, ou seja, à pisada. Ela é fator de risco?

A resposta é não. A análise de diversos estudos nos mostra que não podemos afirmar que a pisada seja fator de risco para qualquer lesão. Mas a nossa principal pergunta ainda está de pé: adequar o calçado de acordo com a postura ou com a pisada evita que você se machuque? 

Em militares --que correm, mas não da mesma forma que os corredores de rua -- uma série de estudos envolvendo mais de 7000 indivíduos foi feita para tentar responder a essa pergunta. Os resultados mostraram que a adequação do calçado não teve nenhum efeito preventivo na ocorrência de lesões .

Mas corredores não são militares... O calçado é diferente, o esforço é diferente. Vai que neles os resultados também são. Pois bem, um estudo canadense avaliou a pisada em mulheres, todas corredoras experientes em treinamento para uma meia maratona (21,097 km). Algumas tiveram o calçado adequado à postura do pé, outras não. Os resultados, não surpreendentemente, mostraram que adequar o tênis não trouxe benefícios em termos de prevenção.

Portanto, parece que adequar o tênis à postura ou à pisada não é a maneira de escolher um calçado para correr.

Mas existe um contraponto. E ele é forte. Um estudo recentemente publicado acompanhou mais de 300 corredores de ambos os sexos, que usaram um tênis com controle de movimento ou neutro. Após seis meses, os cientistas analisaram a relação entre lesões, calçado utilizado e postura do pé. E o que foi encontrado? Que corredores com pé mais pronado, que utilizaram o calçado com controle do movimento, se lesionaram menos que aqueles que não o utilizaram. Além disso, dentre os atletas que usaram o calçado neutro, aqueles com pé pronado tiveram mais lesões. A associação entre maior benefício no uso de calçado com controle do movimento em indivíduos com pé pronado parece clara.

Porém, o método de avaliação da postura do pé foi o Índice de Postura do Pé (Foot Posture Index). Esse método é bem mais detalhado do que o método da análise da pisada convencional.

Essa é uma estratégia que pode ser válida. Avaliar a postura do pé pelo Índice de Postura do Pé e, caso a pessoa tenha um pé pronado, deve optar por um calçado com controle de movimento.

Porém, temos três coisas a considerar:

  1. Você conhece quem faça a avaliação pelo Índice de Postura do Pé?
  2. E se seu pé não for pronado?
  3. E, por fim, e se seu pé for pronado, mas você se sentir bem desconfortável ao usar um calçado com controle de movimento?

Existe uma outra hipótese que pode ser usada paralelamente a essa estratégia. A de testar o calçado e verificar se ele fica confortável ao correr. Tem fundamento? Sim!

Se baseando em diversos estudos, um grupo de pesquisadores canadenses propôs o paradigma da "Trajetória Preferida de Movimento". Segundo eles, o corpo se move de uma determinada forma e o calçado pode permitir ou atrapalhar esse "jeitão" de ele se movimentar. Quando permite, há conforto e menor sobrecarga muscular e articular. Quando atrapalha, o corpo faz "força" pra voltar ao seu "jeitão", há aumento da sobrecarga muscular e articular e menos conforto.

No caso da escolha do seu tênis de corrida, a melhor dica talvez seja a de, simplesmente, colocar o calçado, correr e ver se ficou confortável. Se a resposta for positiva, é bem provável que este seja o modelo certo pra você.

Simples, e já tem muita gente utilizando essa forma de escolha.

E você corredor, qual sua experiência na escolha do calçado para correr? Conte nos comentários.

Referências

1. Neal BS, Griffiths IB, Dowling GJ, Murley GS, Munteanu SE, Franettovich Smith MM, et al. Foot posture as a risk factor for lower limb overuse injury: a systematic review and meta-analysis. J Foot Ankle Res. 2014;7(1):55.
2. Dowling GJ, Murley GS, Munteanu SE, Smith MMF, Neal BS, Griffiths IB, et al. Dynamic foot function as a risk factor for lower limb overuse injury: a systematic review. Journal of Foot and Ankle Research [Internet]. 2014 Dec [cited 2016 Sep 16];7(1). Available from: http://jfootankleres.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13047-014-0053-6
3. Knapik JJ, Swedler DI, Grier TL, Hauret KG, Bullock SH, Williams KW, et al. Injury Reduction Effectiveness of Selecting Running Shoes Based on Plantar Shape: Journal of Strength and Conditioning Research. 2009 May;23(3):685-97.
4. Knapik JJ, Trone DW, Swedler DI, Villasenor A, Bullock SH, Schmied E, et al. Injury Reduction Effectiveness of Assigning Running Shoes Based on Plantar Shape in Marine Corps Basic Training. The American Journal of Sports Medicine. 2010 Sep;38(9):1759-67.
5. Knapik JJ, Brosch LC, Venuto M, Swedler DI, Bullock SH, Gaines LS, et al. Effect on Injuries of Assigning Shoes Based on Foot Shape in Air Force Basic Training. American Journal of Preventive Medicine. 2010 Jan;38(1):S197-211.
6. Knapik JJ, Trone DW, Tchandja J, Jones BH. Injury-Reduction Effectiveness of Prescribing Running Shoes on the Basis of Foot Arch Height: Summary of Military Investigations. Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy. 2014 Oct;44(10):805-12.
7. Ryan MB, Valiant GA, McDonald K, Taunton JE. The effect of three different levels of footwear stability on pain outcomes in women runners: a randomised control trial. British Journal of Sports Medicine. 2011 Jul 1;45(9):715-21.
8. Malisoux L, Chambon N, Delattre N, Gueguen N, Urhausen A, Theisen D. Injury risk in runners using standard or motion control shoes: a randomised controlled trial with participant and assessor blinding. British Journal of Sports Medicine. 2016 Apr;50(8):481-7.
9. Nigg B, Baltich J, Hoerzer S, Enders H. Running shoes and running injuries: mythbusting and a proposal for two new paradigms: "preferred movement path" and "comfort filter." British Journal of Sports Medicine. 2015 Oct;49(20):1290-4.
10. Redmond AC, Crosbie J, Ouvrier RA. Development and validation of a novel rating system for scoring standing foot posture: The Foot Posture Index. Clinical Biomechanics. 2006 Jan;21(1):89-98.