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Claudio Mesquita


Claudio Mesquita

Estalar a coluna não coloca as vértebras no lugar

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O estalo é a quebra da tensão do líquido articular Imagem: iStock
Cláudio Mesquita

Fisioterapeuta formado pela USP e Pós graduado pela USP, UNIFESP e Kaiser Foundation, seu trabalho sempre se focou no atendimento de indivíduos com lesões e queixas ortopédicas e esportivas, embora tenha trabalhado também com pacientes portadores de disfunções neurológicas.

Colunista do UOL VivaBem

2019-04-03T04:00:00

03/04/2019 04h00

Um dos grandes mitos quando o assunto é tratamento das dores nas costas é a afirmação de que "estalar" a coluna coloca as articulações da coluna "no lugar", alinha as vértebras ou termos similares. É uma ideia muito difundida. Porém, errada.

É tentador pensarmos que com o "estalo" houve um encaixe. É possível até "sentirmos" isso quando estalam nossa coluna. Mas não é o que acontece.

Um estudo, publicado em 1998, buscou verificar se haveria mudança do posicionamento dos ossos da articulação sacro-ilíaca (uma das possíveis fontes de dor na coluna lombar) após a aplicação de uma técnica manipulativa articular (essas técnicas que "estalam" ossos). Dez indivíduos com dor foram avaliados e receberam a técnica. Sabe em quantos houve uma mudança da posição da articulação sacro-ilíaca?

Em nenhum!

O benefício clínico oriundo da técnica não teve nada a ver com colocação de vértebras ou articulações "no lugar".

Aliás, o que vêm sendo revelado é que o benefício clínico dessas técnicas manuais articulares não apresenta relação com o "estalo". Ou seja, a pessoa melhora mesmo que estalo nenhum seja percebido.

Mas então o que é o "estalo"?

O "estalo" é a quebra da tensão do líquido articular. Dentro das articulações como dos dedos, das vértebras e outras, temos um líquido que preenche o espaço da articulação, chamado líquido sinovial. Quando movemos a articulação de uma forma extrema ou rápida existe um afastamento dos ossos, criando um espaço, uma bolha de ar (4). No momento em que essa bolha é formada que se ouve o estalo.

Para exemplificar, imagine uma superfície molhada com um copo, virado pra baixo, sobre ela. Se você tenta puxar esse copo para cima você encontrará uma resistência. Ao insistir com mais força você consegue tirar o copo, juntamente a um som similar ao "estalo". Essa descrição --que relato de acordo com minha memória -- me foi dada por meu professor de anatomia no primeiro ano de faculdade (já faz um tempo).

Ou seja, não tem nada de encaixar ou botar no lugar. É só a formação de uma bolha de ar devido à quebra da tensão do líquido.

E por que a pessoa se sente bem, sente que "encaixou"?

Isso é assunto para outro artigo, mas pra dar um aperitivo vale dizer que isso ocorre devido aos efeitos neurofisiológicos da manipulação articular. A explicação está mais relacionada a "neurotransmissores" do que a "encaixe".

E qual a importância de saber isso?

Acreditar que a coluna ou vértebra está "fora do lugar" pode ser intimidador para muita gente e reforça uma ideia de fragilidade em relação à coluna. Isso pode levá-las a achar que não podem fazer atividades ou exercícios, seja porque acreditam nessa fragilidade ou porque pensam que deve-se colocar a coluna no lugar. Essas crenças tendem a levar as pessoas à maior inatividade o que, potencialmente, leva à dor crônica.

Portanto, lembre-se, sua "coluna não sai da posição" e o "estalo" da técnica manual não vai "colocá-la no lugar".

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Referências:

1. Tullberg T, Blomberg S, Branth B, Johnsson R. Manipulation does not alter the position of the sacroiliac joint. A roentgen stereophotogrammetric analysis. Spine. 1998 May 15;23(10):1124-1128; discussion 1129.
2. Cleland JA, Flynn TW, Childs JD, Eberhart S. The Audible Pop from Thoracic Spine Thrust Manipulation and Its Relation to Short-Term Outcomes in Patients with Neck Pain. Journal of Manual & Manipulative Therapy. 2007 Jul;15(3):143-54.
3. Roston JB, Haines RW. Cracking in the metacarpo-phalangeal joint. J Anat. 1947 Apr;81(Pt 2):165-73.
4. Kawchuk GN, Fryer J, Jaremko JL, Zeng H, Rowe L, Thompson R. Real-time visualization of joint cavitation. PLoS ONE. 2015;10(4):e0119470.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL