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Crudivorismo

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2019-06-05T04:00:00

05/06/2019 04h00

A dieta crudívora prega a ingesta apenas de alimentos crus, como o nome sugere, ou aquecidos até 40°C. Ela existe há milênios --é adotada por algumas etnias indígenas, religiões e também como estilo de vida por quem busca uma alimentação mais natural e sustentável. Entre ocidentais, ganhou fama a partir dos anos 1990.

Apesar de trazer mais nutrientes ao prato, segui-la pode trazer riscos para a saúde: é preciso ter cuidado redobrado com a higienização dos alimentos, além de ser um plano alimentar que dificulta o acesso a proteínas animais, leguminosas e tubérculos.

A vantagem, no entanto, é que quem adere ao crudivorismo deixa de lado açúcares, farinhas brancas e os alimentos ultraprocessados. O grupo até cabe numa dieta equilibrada, o problema é que nós abusamos dele, e estamos longe das recomendações diárias de consumo de frutas, legumes e verduras - de 3 a 5 porções ao dia. De acordo com o Instituto Brasileiro de Frutas, cada pessoa no país come 57 quilos ao ano de frutas e hortaliças. Na conta da Organização Mundial de Saúde, deveriam ser 146 quilos.

Na dieta "raw food", outro nome da prática, a ingestão de fibras e micronutrientes, como vitaminas, minerais e antioxidantes aumenta consideravelmente. O que é muito bem-vindo, é claro. Privilegiar a natureza pode trazer mais saúde e controle do peso, mas o radicalismo ao eliminar todos os outros grupos alimentares e modos de preparo da dieta pode causar deficiências nutricionais e problemas. Saiba mais sobre o método:

Como é feita a dieta crudívora?

São vários tipos. Algumas vertentes pregam que o alimento seja comido o mais natural possível, sem que seja picado ou processado. Outras, as mais comuns, permitem o processamento, desde que a comida não seja aquecida a mais de 40°C. Algumas pessoas comem 100% de alimentos crus e outras apenas uma parte.

A maior parte das calorias numa dieta crudívora vem do açúcar das frutas. Azeite, oleaginosas não assadas e seus derivados, como bebidas e cremes, legumes e verduras cruas complementam o aporte energético. Feijão e companhia também entram no prato, mas germinados, em forma de broto.

E, apesar de ser uma derivada do veganismo, há até crudívoros que comem carne --nesse caso, crua.

Cozinhar destrói enzimas da digestão?

Esse é o principal argumento "científico" de quem adere à dieta crudívora por conta da saúde. Mas ele não faz muito sentido. O corpo humano evoluiu há milhares de anos, desenvolvendo enzimas para processar os alimentos cozidos, então a digestão não é afetada pela temperatura.

"O que acontece é que perdemos alguns minerais, algumas vitaminas, agora enzimas digestivas temos no nosso corpo", aponta Lara Natacci, nutricionista da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (SBAN). Essas perdas nutricionais são pequenas, e o calor pode abrandar alguns antinutrientes que dificultam a digestão, além de eliminar vários micro-organismos presentes na comida.

O que deve ser cozido

Batata, mandioca, mandioquinha e companhia para facilitar a digestão e melhorar a textura --algumas pessoas ralam esses tubérculos para comê-los crus e não há muito perigo, mas o aquecimento faz a diferença na consistência e na digestão. Ah, e cozinhe sempre com casca, para preservar melhor os nutrientes.

Leguminosas, grupo do feijão, devem ser aquecidas pelos mesmos motivos e porque o calor ajuda a abrandar antinutrientes como os fitatos, que prejudicam a absorção de minerais. Compostos do tipo estão ainda nos tubérculos, em menor quantidade, nos grãos, nas folhas verde escuras e nas crucíferas --brócolis e couve-flor.

Alguns nutrientes são potencializados com o calor, como os antioxidantes da família dos carotenos. É o caso do licopeno do tomate, do betacaroteno da cenoura e da abóbora --melhor aproveitados quando aquecidos junto com uma gordura.

Já as carnes devem ser cozidas por uma questão de segurança, em temperaturas acima de 60°C para cortes bovinos e 70°C para porco e frango. Os especialistas também não recomendam o consumo de ovo cru, que pode estar contaminado por micro-organismos como a salmonela.

O que funciona melhor cru

No geral, frutas e hortaliças têm mais nutrientes quando cruas. É o caso das fibras, que promovem saciedade, melhoram a saúde do intestino e são importantes para a saúde. O ideal seria ingerirmos 30 g ao dia - e, apesar de não existirem estudos sobre o consumo especificamente delas no Brasil, sabemos que vegetais in natura andam em falta no prato nacional. Fora que algumas vitaminas e minerais, como a C e as do complexo B, se perdem na água.

Riscos do crudivorismo

Como envolve mais alimentos crus, o crudivorismo exige cuidado redobrado com a higienização dos alimentos, para evitar infecções por micro-organismos presentes nos vegetais. Há também o risco de deficiências nutricionais, em especial para os veganos e vegetarianos, que precisam ficar atentos à quantidade de proteína ingerida, além dos níveis de ferro, vitamina D e vitamina B12, que são difíceis de obter em dietas cruas.

Por último, existe uma questão psicológica. Comer é um prazer e um hábito cultural e social, que reúne família e amigos. Se o resto da turma manter a dieta padrão brasileira, a socialização pode ser prejudicada: a pessoa deixa de frequentar lugares, recusar convites. O isolamento não é nada bacana para a saúde mental e para a própria relação com o prato.

Quem não pode fazer

No geral, portadores de doenças e pessoas com a saúde frágil não devem apostar em dietas radicais, em especial por conta própria, pois elas alteram o metabolismo e a quantidade de nutrientes ingeridos. Crianças, gestantes e idosos precisam de mais nutrientes, por isso só devem aderir a um plano do tipo com autorização médica.

Pessoas com a digestão lenta ou problemas gastrointestinais podem sentir incômodo por conta do excesso de alimentos crus, cujas fibras exigem mais trabalho para serem processadas no intestino. Não é à toa que os médicos recomendam uma dieta apenas de legumes e verduras cozidos para pessoas com gastrite e outras doenças.

Veredicto

Se o foco for a saúde, que tal fazer uma dieta quase crudívora, só que colocando no cardápio mais grupos alimentares e modos de preparo diferentes? Mesmo que exclua itens prejudiciais como o açúcar refinado, o crudivorismo "raiz" acaba também dificultando o acesso a proteínas animais, leguminosas, cereais e tubérculos, por exemplo.

Agora, se você adere à dieta por motivos filosóficos, políticos ou religiosos, tudo bem, é possível segui-la de maneira saudável, mas, para isso, é preciso se consultar com um profissional de saúde e fazer acompanhamento constante para flagrar e corrigir possíveis deficiências nutricionais.

Fontes: Andrea Pereira, nutróloga do Hospital Albert Einstein; Bianca Naves, nutricionista com especialização em medicina do estilo de vida e membro da Câmara Técnica do Conselho Regional de Nutricionistas da 3ª Região SP-MS (CRN-3); Cristiane Almeida Hanasihiro, nutricionista da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo; Lara Natacci, nutricionista doutora pela Universidade de São Paulo e membro da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (SBAN)

Reportagem: Chloé Pinheiro